Budapeste, onde paguei 8 mil de multa.

Depois de me mandar de Genebra, feliz da vida, em um avião todo cor de rosa da Wizz Air, segui para Budapest. Estava fazendo muito frio e o céu estava completamente fechado quando chegamos lá. Para chegar à cidade, tivemos que pegar um ônibus que, em poucos minutos, nos deixou na estação de metrô de Kobanya Kispest, de onde partiríamos para a estação Corvin-negyed e andaríamos até o hostel. Esse foi o roteiro que o google maps nos deu e que tivemos o cuidado de anotar no celular ainda em Genebra.

O roteiro estava correto e funcionou, mas, bem, não poderia funcionar lindamente, porque sempre algo tem que dar errado, para que a viagem seja inesquecível e eu tenha o que escrever aqui depois.

Antes de sair do aeroporto, fomos ao posto de informações turísticas para catar um mapinha grátis 🙂 e confirmar o local onde pegaríamos o tal ônibus para Kispest. O carinha do posto nos informou que o ônibus a gente pegava bem perto da porta do aeroporto mesmo, que era só ficar lá fora esperando, e que as passagens teriam que ser compradas antes de entrar no ônibus, em uma maquininha que ficava lá fora, logo na saída. E que estava quebrada, mas isso ele não falou pra gente.

Encontramos a maquininha, selecionamos as opções e tentamos colocar o dinheiro dentro, mas ela não puxava. Tentamos algumas vezes e nada. Tudo bem, um pouco mais à frente tinha outra máquina, bem no lugar onde pegaríamos o ônibus. Fomos até lá, mas a máquina só aceitava moedas e não tinha a opção que queríamos, do cartão de passagem válido por 48h, só vendia a passagem única. Voltamos ao posto de informações e o carinha disse que podíamos comprar as passagens na banca de revista que ficava logo ao lado. Na banca de revista também só vendia a passagem única, então compramos somente uma para cada um e fomos pegar o ônibus. Na estação de metrô pararíamos na outra maquininha e compraríamos o bilhete de 48h, que saía muito mais em conta.

Dentro do ônibus tinha uma máquina pequena onde todos iam, colocavam o bilhete dentro e depois tiravam de volta. É o que eles chamam de “validar” a passagem e é obrigatório fazer isso. O ticket fica carimbado com a data e o horário em que o transporte foi usado. O ônibus deixou a gente em um ponto na beira da estrada que dava para uma escada que todo mundo estava seguindo e nós fomos junto. No topo da escada, avistei um carinha fardado com uma roupa preta, com um bloquinho na mão, e algumas pessoas passavam por ele e mostravam o bilhete. Como nós estávamos cheios de mochilas e sacolas na mão, passamos direto e nem ligamos para o que era aquilo. Chegamos à estação e o metrô já estava lá, prestes a partir. Entramos rapidamente naquela lata velha e pixada que saculejava o tempo todo como se fosse desmontar no meio do caminho e fomos embora. Nem olhamos se na estação tinha máquina de ticket ou não, decidimos comprar o risco e, se fosse necessário a gente mostrava o mesmo ticket do ônibus e dava uma de João sem braço.

Chegando lá na estação, bem no topo das escadas rolantes, um time de carinhas fardados nos aguardavam. Eu passei primeiro, uma mulher gordinha pediu para ver o ticket, eu mostrei a ela, ela disse “tudo bem” e eu me mandei. Mas aí Rafael passou depois e um velho gordo com a malícia nos olhos pegou o ticket dele e viu que tinha sido usado no ônibus, e não no metrô, e aí falou “peraê, peraê” para mim (mochilinhas iguais :() e aí eu já sabia que estava tudo ferrado.

O cara chamou a gordinha, deu uma bronca nela em húngaro e depois fechou uma rodinha em torno da gente. Claro, fingimos que não sabíamos que era assim, dissemos que não tínhamos entendido que precisava de tickets diferentes, etc, etc. A gente falou até que não tinha dinheiro, aí ele disse que não tinha problema, um de nós dois podia ir na casa de câmbio na estação mesmo e comprar a moeda e voltar para pagar o que devíamos. A multa era de 8000 forints para cada um. Calma, 8000 forints não é exatamente muito dinheiro. Não foi necessário vendermos nossos celulares e câmera para pagarmos a multa. 8000 forints é o equivalente a uns 20 pounds, que é bastante dinheiro, mas nada que fosse nos levar à falência. Quando chegamos à conclusão que não tinha jeito e não valia continuar aquele constrangimento no meio da estação, entregamos nosso dinheiro sofrido, pegamos nossos recibos e saímos de lá xingando em português e sorrindo.

Moral da história: Não dê uma de espertinho no país dos outros.

Andamos o caminho todo até o hostel, com a promessa de que não pegaríamos nenhum meio de transporte naquela cidade para compensar o gasto imprevisto. Recebemos a orientação de que o hostel Black Apple ficava no primeiro andar de um prédio antigo e  que não tinha nenhuma placa de sinalização, mas que era só tocar o interfone no número x que eles abriam o portão. Entramos em um prédio errado primeiro, que ficava bem perto do correto (tocamos o interfone e alguém abriu pra nós, depois saímos de lá correndo com medo porque o lugar era assustador) e depois finalmente encontramos o prédio certo.

O hostel era bem pequeno e simples, mas aconchegante. Funcionava dentro de um prédio residencial, mas que também tinha outros tipos de estabelecimentos (uma clínica dentária muito suspeita, por exemplo). Lá dentro tem somente uns 3 ou 4 quartos. Pegamos um quarto duplo e saiu bem baratinho. Tinham dois banheiros e dois chuveiros e a cozinha era boa. A moça da recepção era legal também, e ficava dormindo no sofá e vendo filme durante o dia e aí quando alguém chegava ela levantava assustada, com a cara amassada e o cabelo bagunçado para atender. O hostel era assim, bem antiprofissional e sem regras. A internet era nota 10 e funcionava no quarto (provavelmente porque tinham poucos hóspedes para usar). Não tinha café da manhã incluso.

“Sinalização” do Hostel

Cozinha.

Recadinho amigável no banheiro.

A localização do hostel era próximo de boa, ou seja, tivemos que andar bastante para chegar aos locais (já que não pegamos transporte em momento algum, exceto na volta para o aeroporto). Como sempre, no primeiro dia fomos conhecer o terreno e aproveitamos para comprar comidas para a noite o café da manhã seguinte e depois voltamos para descansar e planejar o dia seguinte.

Budapeste é dividida pelo rio Danúbio em Buda e Peste. Acredito que o melhor lugar para se hospedar é em Peste, como fizemos, porque tem mais movimento, mais restaurantes e lojas, enquanto Buda é legal para passear, mas os dois locais tem muita coisa para conhecer e visitar. Ficamos em Budapeste por 4 noites e não conseguimos ir a todos os locais que queríamos porque a cidade é cheia de lugares lindos, com vistas maravilhosas e muita história para conhecer.

Para a nossa alegria, Budapest é cheia daqueles esquemas de Walking Tours, que eu já falei para vocês como funciona. Pegamos o tour saindo da Vorosmarty Square, com duração de 2:30h. Esse tour foi um dos melhores, pois a guia primeiro nos contou toda a história da Hungria, desde quando era apenas uma aldeia, até os tempos atuais e ela não falava apenas sobre as curiosidades, mas contava os fatos históricos com detalhes e também era muito engraçada.

Na Hungria eles têm um idioma próprio, do qual se orgulham muito, que é o húngaro (ou magyar), e que é muito esquisito e complicadíssimo. Em todos os lugares que visitamos, mesmo que não dominássemos o idioma, dava para entender alguma das palavras por conta de algumas semelhanças. Na Hungria não tivemos isso em momento algum. Segundo a guia, a dificuldade está no fato de que toda uma frase em húngaro é aglutinada em uma só palavra. Por exemplo, se eu quero dizer vou ao cinema, ao invés de dizer três palavras, eu falo uma só, com tudo dentro.

Ela também disse que a lingua falada pelo mestre Yoda em Star Wars tem a ver com o húngaro, e que eles meio que entendem o que ele fala (o câmera principal, que esteve presente em todos os filmes era húngaro), e eles também entendem a língua falada pelos ETs em alguns filmes (essa parte eu fiquei na dúvida se era mesmo verdade, haha). Quando fomos comprar água no mercado, tinham vários tipos de cores de tampas, e não tinha como identificar em húngaro qual delas era sem gás. Na dúvida, compramos de dois tipos, e descobrimos que a da tampa rosa é a sem gás. A da tampa azul tinha escrito “szénsavas”, e a rosa tinha escrito “szénsavmentes” que significa água sem gás, imagino.

Outra coisa interessante sobre a Hungria é o dinheiro. O dinheiro da Hungria é o mais legal de todos (para quem não é húngaro), por que a moeda é desvalorizadíssima, e por isso as coisas lá são muito baratas. Dá pra almoçar em restaurante chique, gourmet, e comer muito bem com pouco dinheiro. Depois de passar fome em Genebra, tiramos a barriga da miséria em grande estilo na Hungria :D. Segundo a guia, é por isso que eles não conseguiram entrar definitivamente para a União Européia ainda, porque estão completamente quebrados. Nas palavras dela: “Dinheiro Húngaro é como dinheiro de banco imobiliário: notas altas, bonitas, você pode brincar com elas, mas não servem para comprar nada”.

Inclusive, por experiência própria, aconselho quem for visitar a Hungria a deixar para comprar a moeda lá mesmo, porque é mais desvalorizada ainda e a gente sai lucrando com isso ;). Compre mesmo só uma parte antes, para alguma despesa emergencial, lanche, ou pagamento de multa, hehe. Um dia desses, esvaziando minha bolsa encontrei um papel dobrado e quando abri, olhem só o que era:

Hungarian Forint.

Hungarian Forint.

Estou tentando passar para qualquer um por 1 pound (interessados, me procurem).

Começamos o tour em Peste, depois atravessamos a Chain Bridge (claro!), e passamos para Buda.

A Chain Bridge (ponte das correntes) foi desenhada por um engenheiro inglês (por isso a semelhança com a Tower Bridge de Londres), foi bombardeada e destruída na segunda guerra, e reconstruída e inaugurada 100 anos depois.

Chain Bridge

Chain Bridge

Em Buda, logo depois que atravessamos a ponte, subimos uma série de escadas que levam para a parte alta da cidade, onde ficam o Buda Castle (o castelo de Buda), Fishermen’s Bastion, Mathias Church, e outras construções muito bonitas. O Fishermen’s Bastion é um castelinho muito fofo, que foi construído para substituir uma antiga fortaleza que ocupava esse lugar, que é bem estratégico, pois fica no alto e na beira do Danúbio. O lugar é cheio de arcos e janelões de onde dá pra ver o parlamento, que fica em Peste.

Fishermen's Bastion

Fishermen’s Bastion.

Vista do parlamento lá longe.

Buda Castle

Buda Castle.

Igreja de São Mathias

Igreja de São Mathias – Esse telhado é muito lindo e é típico de lá.

A cidade toda é dividida em distritos, que são tipo bairros. Nós ficamos hospedados no VIII discrict, e no VII é onde ficam alguns dos pontos turísticos de Peste. O distrito onde ficam as construções da foto é o Buda Castle District. No dia seguinte, voltamos a esses locais à noite e, pra mim, essa foi a parte mais sensacional da viagem. Budapeste é conhecida como “A Paris do Oriente”, porque à noite a cidade ganha brilho e fica completamente iluminada, mas, na verdade, se eu tivesse que escolher entre uma das duas, elegeria Budapeste a mais deslumbrante com toda a certeza. Só de olhar as fotos, já fico com saudade daquele lugar.

Chain Bridge à noite.

Chain Bridge à noite.

Peste, vista do Buda Castle à noite.

Peste, vista do Buda Castle à noite.

Gresham Palace. Olhem que coisa linda é esse hotel à noite.

Gresham Palace. Olhem que coisa linda é esse hotel à noite.

O Parlamento, que parece mais um castelo da Disney.

O Parlamento, que parece um castelo da Disney.

Pela manhã, um lugar lindo de visitar é o Gellert Hill, que é um parque enorme que toma toda uma montanha e durante a subida tem várias “varandinhas” para se sentar e ficar apreciando a paisagem em volta do Danúbio. Lá em cima tem a estátua da liberdade da Hungria e mais uma estátua de um carinha triste com um cavalo e abraçando um castelinho, que eu não sei o que representa, pois não entendo húngaro, mas achei bonitinho assim mesmo.

Gellert Hill.

Gellert Hill.

Voltando para o lado de Peste, ainda tem muitos locais incríveis para conhecer. Um deles é a igreja de St. Stephens, que foi o primeiro rei da Hungria, e que é o santo mais popular do país. Dizem que dentro da igreja está a mão direita dele, e que outras partes de seu corpo estão espalhadas por outros países, de tão querido que ele era. A igreja é mesmo muito linda e rica em detalhes. De vários pontos da cidade dá pra ver a igreja porque ela é muito grande e alta.

Igreja de St. Stephens.

Igreja de St. Stephens.

Na beira do rio circula a linha 2 do metrô, que é considerada a linha mais bela do mundo. Ela percorre todo o Danúbio pelo lado de Peste, passando, dentre outros locais, pelo parlamento, e custa somente o preço da tarifa normal (350 forints, se não me engano). Vale muito mais a pena do que pagar um sightseeing. Inclusive, andar pela beira do Danúbio é perigoso, em qualquer hora do dia, e em qualquer um dos lados, então não vale a pena arriscar uma caminhada a pé.

Linha 2.

Linha 2.

Próximo ao Pest Redout, que é outro prédio lindo onde funciona um concert hall, tem uma feirinha de comidas e artesanatos típicos que funciona durante toda a semana, mas aos sábados é ainda mais legal. É um excelente lugar para provar comidas típicas e comprar lembrancinhas. Tudo é muito colorido, os cheiros das comidas é delicioso e os preços não são caros. Foi nessa feirinha que comprei vários docinhos lindos, grandes e coloridos, e aí quando fui comer parecia massinha de modelar só que doce, uma coisa horrível.

Feirinha.

Feirinha.

Artesanatos coloridos.

Artesanatos coloridos.

Docinhos para olhar.

Docinhos para olhar apenas.

Nesse dia teve até música ao vivo, estava acontecendo um festival da primavera, foi bem legal e durou até a noite.

Para encerrar o post, mais uma curiosidade aprendida na Hungria: O “Alô”, que tanto usamos para atender o telefone, e que não temos idéia de onde surgiu, na verdade é de uma saudação Húngara (“Hallo, que eles pronunciam como “Alô” mesmo) que significa “Eu sei que você está aí” ou algo semelhante, por conta do assistente de Thomas Edison, que era Húngaro e usava essa palavra para testar o telefone. Legal, né?

Budapeste é um destino que eu super indico, porque é um lugar lindo, de custo muito baixo e com muita coisa para fazer. Vale a pena pesquisar antes os locais interessantes para visitar (e são muitos), para não acabar se perdendo pela cidade com tanto lugar legal para conhecer.

Ah, e não esqueçam de comprar e validar seus tíckets!

Beijos,

Lenita

2 comentários sobre “Budapeste, onde paguei 8 mil de multa.

  1. Felipe Reis disse:

    Lenita, que demais velhooo! Me perguntava se valia mesmo a pena ir à Budapeste, se era uma das prioridades! Agora vejo que pela moeda e pelo noite linda que é lá, poxa, apaixonante!! menina, como é que vc descobre tanta coisa em tão pouco tempo de viagem e tão pouco tempo de planejamento? E como vc arranja tantos dias assim direto fora da faculdade? aiuheauieiuaheiu Tô amando seu blog, vc é ótima, bixo! *__*

    • lenitanavarro disse:

      Oi Felipe, que bom que está gostando do blog! Então, eu saio lendo tudo que encontro pela frente na Internet (e nos aplicativos) pra planejar os roteiros das viagens. E sobre o tempo pra viajar, eu aproveito todos os recessos e feriados pra conhecer novos lugares, já que eu so tenho um ano aqui. É o mês inteiro adiantando coisas e economizando e quando tem uma brechinha eu me pico de Coventry e vou ser feliz, haha 🙂

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