Recordações da minha chegada ao velho mundo.

A primeira vez que peguei neve em Coventry.

A primeira vez que peguei neve em Coventry.

Ando com a cabeça na minha volta para o Brasil, nas malas que vou ter que levar, nos documentos que tenho que providenciar, nas contas que terei que cancelar, etc. E quando penso na volta, não tem como não lembrar de como foi a vinda. Ainda não ouvi história mais azarada que a da minha vinda pra cá. E não tem como não me perguntar porque que eu ainda não escrevi sobre isso aqui no blog. Antes que seja tarde demais, eis a narração:

Eu estava no aeroporto de Salvador, aguardando dar o horário do meu vôo e morrendo de calor, pois, ao meio-dia de um dia ensolarado de verão, eu estava usando uma meia calça fio 5mil por baixo da calça jeans e calçando BOTAS, porque queria chegar chegando na Europa. A bolsa estava socada com 1 casaco e uma blusa de manga comprida, além de todos os documentos que eu precisaria para passar pela imigração. Coloquei TODOS os documentos que tinha em casa, originais e cópias, quando na verdade precisaria somente de 1, que era o da universidade. Antes sobrar do que faltar, eu sei, mas teria sido bem mais útil ter colocado uma troca de roupa ou, no mínimo, uma calcinha, o que eu não fiz, e me ferrei depois.

O intinerário seria o seguinte: Salvador-Rio, intervalo de 2 horas de espera, Rio-Paris, mais 2h de espera, Paris-Londres. Chegaria em Londres às 10:30h do dia seguinte, o que era um horário bom, pois teria tempo de sobra para esperar o ônibus da faculdade, que nos pegaria no aeroporto e nos traria para nossa casinha em Coventry.

Pra começar, o vôo saindo de Salvador já atrasou “porque o piloto não conseguiu pousar, e estava indo para Maceió” (OI?). Tudo bem, a empresa nos deu um vale comida (como sou fácil, haha), lanchamos e ficamos esperando, já meio neuróticos, eu e Rafael, pois provavelmente teríamos que ser encaixados em outro vôo lá no Rio.

Chegamos ao Rio, fomos logo procurar o balcão da KLM-Air France, pra saber como eles resolveriam o nosso problema. Nos colocariam no vôo das 20h, ok. Mas aí o vôo foi cancelado! E teríamos que esperar o vôo da meia noite. Só aí já somavam 6 horas de atraso na nossa chegada a Paris. Fomos atrás de mais um vale-comida, afinal, teríamos que esperar muito tempo ainda, hehe :).

E aí, de repente me toquei que já tinhamos perdido o ônibus da universidade. Já era, ferrou. Ia chegar em Londres e…? Liguei pra minha irmã, pedi a ela para pesquisar como ir de Londres pra Coventry e fui anotando as informações soltas que ela me dava em um papelzinho, das estações de metrô, do endereço da estação de trem, etc.

Finalmente, chegou a hora de sair do Brasil. Minha primeira viagem internacional . Entramos no avião da Air France, que era super arrumado, bem confortável, comida boa (tirando o chocolate quente, que era água quente com nescau), uma tv com filmes para cada poltrona, etc. Antes de embarcar, comprei um livro bem grosso para ter o que fazer durante as muitas horas sentada na poltrona, mas acabei nem lendo muito, com tanto filme e séries legais pra assistir, e também muito cansada de tanto pular de um vôo a outro.

E, “de repente”, pediram pra abrir as janelas do avião para o pouso. Quando olhei lá pra baixo, quase fiquei cega. Era o sol batendo no chão coberto de neve. Tudo estava coberto de neve, a pista, as árvores, o teto das casas e dos carros que passavam lá em baixo, tudo branco. Uma coisa linda. Mas também uma coisa que complicou mais ainda a nossa situação, pois o avião pousou e ainda teve que ficar um tempão lá, parado, esperando vir um carro pra limpar o caminho, e depois esperando limpar a área onde ele ia fazer a manobra para estacionar. Depois de muito tempo, finalmente colocamos os pés no chão novamente. E como estava frio! Os casacos que estava usando (made in feirinha de Brasília! haha), a luva peba, o gorro, pareciam nada diante do vento congelante que circulava por aquele “tubão” que leva a gente até o interior do aeroporto.

Quando entramos no aeroporto: O CAOS! A maioria dos vôos tinham sido cancelados, sem condições de aviões circulando com aquela neve toda. O nosso vôo (re-remarcado) tinha sido cancelado também, e entramos na fila gigantesca da KLM para ver o que eles poderiam fazer por nós. Essa é a parte na qual eu começo a desabafar. Tinha realmente muita gente para ser atendida e a fila não parava de crescer a cada vôo que aterrissava no aeroporto. A maioria dos vôos do dia tinham sido cancelados, o caos estava instaurado e no balcão da empresa, onde tinha espaço para uns 12 atendentes, tinham apenas 3! E dois somente atendiam os clientes VIPs!

O tempo todo era barraco, os clientes gritavam com os atendentes, os atendentes gritavam de volta, todos estavam cansados, todos presos naquele aeroporto. E a fila enchia, chegava chinês que não acabava mais, chegou uma mulher árabe com seu filho e começou a chorar, a berrar e gritar coisas árabes! Depois chegaram uns italianos barraqueiros e começaram a gritar também, insatisfeitos com a falta de atendimento. Um cara da fila VIP foi reclamar da demora e virou motivo de chacota de todos os que estavam na fila normal, sofreu bullying mesmo (#bemfeito). Tinha um menino com um terço na mão que também chorava sem parar (depois descobrimos que ele era brasileiro e fomos lá falar com ele), preocupado porque não sabia falar uma palavra em inglês, e não tinha como se comunicar com a família. Enfim, só sei que no meio dessa bagunça nós ficamos de pé em uma fila durante mais de 4 horas.

Quando finalmente fomos atendidos, já era tarde da noite, e a atendente nos deu duas opções: 1. Embarcar no vôo para Londres que sairia dali a uns 40 minutos, mas sem nossas malas, pois o check in estava encerrado e no primeiro vôo do dia seguinte eles enviariam nossas malas, que seriam entregues na porta de casa, em Coventry; OU 2. Aguardar o próximo vôo, que seria as 10:30 da manhã, mas teríamos que dormir no aeroporto mesmo, pois as acomodações já estavam esgotadas. Cansados de rodar de um lado para o outro, ficamos com a opção 1, e saímos de lá correndo para conseguir pegar o vôo que, adivinhem só, atrasou novamente (ainda por cima imprimiram o meu nome errado no cartão de embarque e tive que voltar correndo pelo aeroporto que nem doida pra reimprimirem tudo).

Com tantas horas de atraso que até perdi as contas, chegamos em Londres de madrugada, e tivemos que dormir ali mesmo, no banco frio do aeroporto, pois o metrô já estava fechado e não adiantava pegar taxi para a estação de trem, já que não sairía trem para Coventry até o amanhecer. Obviamente, ansiosos, preocupados e sem entrar em contato com ninguém, não conseguimos dormir e ficamos apenas perambulando, esperando dar a hora do metrô abrir. Ligamos do telefone público para o seguro viagem que contratamos (já sabendo que eles arrumariam uma desculpa), mas eles disseram que não cobriam cancelamento de vôo por causas naturais (a neve, no caso).

Pra resumir a história: Assim que amanheceu, pegamos o metrô. As orientações da minha irmã deram certo, chegamos à estação de trem e pegamos o próximo trem para Coventry, onde chegamos 1h depois (super rápido, uma beleza!) e viemos direto para casa. Chegando aqui, encontramos a casa PURA. Não tinha um papel higiênico no banheiro, um lençol em cima do colchão, um copo para beber água…nada mesmo. Saímos andando na neve (escorregando ladeira abaixo, no meu caso, calçando minhas botas lyndas, de solado liso), até o centro, onde tivemos que comprar todas as coisas da vida (ex: edredon, pratos, travesseiro, roupa de frio, sabonete, escova de dentes, comidas e uma bota de neve daquelas horrorosas, caso contrário certamente eu iria me esborrachar no chão na volta). Na hora de voltar pra casa, nos perdemos, voltamos para o centro e refizemos o caminho até encontrar nossa rua novamente.

Nessa brincadeira acabamos perdendo o primeiro dia da matrícula e da aula. A KLM não entregou nossas malas naquele dia, nem no dia seguinte, nem do dia seguinte ao dia seguinte, e nem no próximo. A KLM só entregou nossas malas quase uma semana depois!

Mas não ficou por isso mesmo. Enviamos para eles todos os gastos que fizemos nesse período, afinal, não tinhamos roupa para usar, nem produtos de higiene, nem roupa de cama, nem nada! E ainda bem que eu trouxe todos aqueles milhões de papeis comigo, caso contrário nem conseguiria fazer minha matrícula e perderia o prazo. Imaginem a confusão. No fim das contas, eles nos reembolsaram o valor completo, que eu utilizei exclusivamente para me dar de presente a minha câmera, que hoje me acompanha em todas as viagens, como consolo pelo sacrifício que foi chegar até aqui.

 

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