Vale do Capão – Chapada Diamantina

No recesso junino do ano passado, juntamos uns amigos e, com pouco planejamento e dinheiro, decidimos ir comemorar o São João no Capão. Uma amiga encontrou um anúncio de um cara no facebook que estava alugando uma casa por lá, montou um grupo no whatsapp, perguntou quem colava com ela, e 5 dias depois já estávamos na rodoviária de mochila nas costas.

O Vale do Capão faz parte do Parque Nacional da Chapada Diamantina, uma área de preservação ambiental aqui na Bahia. O parque preserva as nascentes de rios e uma fauna e flora muito ricas, e todo ano são encontradas novas espécies de animais e plantas. A região da chapada é composta por diversos municípios, sendo o maior deles a cidade de Lençóis, que é a que possui a melhor estrutura de hotéis, restaurantes, transporte, bancos, etc.

Mas fomos para o Vale do Capão, onde não existe banco, o acesso é por estrada de terra em uma kombi (ou automóvel semelhante) sacolejante, há chances de faltar luz nos períodos de pico turístico, celular: esqueça, internet só na lan house – 1 rim e 0,5 fígado por 30 min de acesso – e as pessoas tem mania de serem vegetarianas.

Como lá não pega celular, já partimos de Salvador com as orientações da expert Fernanda (que já foi ao Capão várias vezes, e que foi quem alugou a casa para nós) de que deveríamos pegar o ônibus Salvador-Palmeiras (rapidinho, só 8h de viagem), em Palmeiras, pegar transporte clandestino que qualquer cara em um carro grande oferecesse (custo fixo de 10 reais), e pedir a ele que nos deixasse no “Sítio das Rodas”. Chegando lá, perguntaríamos “moço, onde fica a casa de Fulano e Cicrana?”, então seríamos orientados, pegaríamos a chave debaixo do tapete e esperaríamos ela – que tinha chegado no dia anterior, limpado a casa, arrancado colméias de marimbondos, etc – voltar de algum passeio por cachoeiras aleatórias.

Prefiro não discorrer muito sobre como todas as orientações deram errado, mas brevemente: O cara da kombi avisou logo que só levaria a gente até o centro e que o tal sítio era longe (subimos ladeiras infinitas de barro até chegar lá). O bar onde deveríamos pedir informações estava fechado. Quando encontramos o sítio, o sol já tinha ido embora e os mosquitos nos comiam. O sítio era um condomínio de casas ENORME, coberto de mato, cheio de bifurcações e aparentemente inabitado. Quando encontramos uma alma viva no sítio, ela nos informou que não conhecia Fulano e Cicrana, mas tentou nos orientar de alguma maneira. Por fim, bem pouco antes de o breu total tomar conta, conseguimos encontrar a casa. Ao menos a chave estava mesmo debaixo do tapete.

Nossa humilde residência.

Nossa humilde residência.

A melhor coisa foi termos alugado aquela casa. No primeiro dia, fui dormir amaldiçoando a localização da casa, a falta de um chuveiro elétrico (água de rio nem é fria, né?) e o excesso de insetos, mas de dia me surpreendi com a paisagem linda de montanhas que se revelavam lá fora, bastava olhar pela janela ou sair pela porta.

A economia também foi absurda. No fim das contas, cada um pagou um total de 100 reais por 6 diárias. Acho que nem acampando sairia tão barato.

A casa tinha suas peculiaridades: O sítio era uma aldeia hippie, então nossos vizinhos eram bem alternativos e gente boa, e tinham o costume de nadar pelados em um rio que passava lá por dentro. A rede de distribuição de energia não chegava até lá, então tivemos que nos contentar com a energia do painel solar, e usar com moderação, porque se acabasse, acabou e pronto, vai dormir.

Economizamos também com alimentação, já que compramos comida no mercado (nada perecível, devido à inexistência de geladeira) e aí só gastamos mesmo com almoço fora e licor, porque né.

O Vale do Capão tem uma pegada bem alternativa. Para quem gosta de ambientes mais tranquilos, onde é possível se desconectar um pouco da vida corrida, recarregar as energias e se comunicar com a natureza, esse é um bom lugar. Na pracinha principal, os hippies vendem seus artesanatos de dia e de noite, quando tem sempre alguma atração musical. Como fomos no período do São João, as atrações geralmente eram quadrilhas, bandinhas de forró, etc. Curiosamente, no dia do feriado mesmo a atração foi uma banda cover de Barão Vermelho.

São João no Capão: Gi, eu, Lu, Nanda e Peipow :).

São João no Capão: Gi, eu, Lu, Nanda e Peipow :).

Durante o dia, acordávamos cedo, comíamos o nosso cuscuz e depois saíamos em busca de alguma trilha legal. Para quem viaja em grupos, uma dica boa é arrumar algum guia nativo para passar o dia mostrando as cachoeiras. Foi o que fizemos no primeiro dia por lá. Fechamos um “pacote” e fomos conhecer a cachoeira do Rio Preto e a Cachoeira das Rodas, com a ajuda de Jean e sua filha Jade.

A trilha é bem tranquila e não demorou tanto, pois o sítio fica meio que na metade do caminho entre o centro e as cachoeiras, então nesse ponto a nossa complicada localização foi vantajosa. Apesar de ser fácil, dá pra se perder na trilha – eu provavelmente teria me perdido sem o guia, que era pra ter o que contar aqui no blog.

A cachoeira do Rio Preto é linda, ótima para tomar banho e comer pastel de jaca, que é a comida mais famosa do Capão (vende em todo canto e é muito gostoso, juro!).

Pastel vegetariano de palmito de jaca.

Pastel vegetariano de palmito de jaca.

Rio Preto - A foto está péssima, eu sei.

Rio Preto – A foto está péssima, eu sei.

De lá, seguimos outra trilha para a Cachoeira das Rodas. Essa já foi bem mais difícil, pois a subida era meio íngreme e tinha perigo de escorregar nas pedrinhas. Quando chegamos lá, a cachoeira estava meio seca, o que foi ótimo pois tivemos um visual totalmente diferente e bem bonito. Era como uma sequência vertical de piscinas naturais. Achei melhor ainda do que a cachoeira cheia que vi em fotos, e também mais bonita que a do Rio Preto.

Cachoeira das Rodas

Cachoeira das Rodas

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Piscina natural de borda infinita.

À noite não há muito o que fazer, senão ir à praça e ficar lá de bobeira, curtindo alguma bandinha que esteja se apresentando, ouvindo os vendedores hippies falarem sobre os cristais e pedras que vendem e os seus poderes e olhando o movimento. Ah, e tomando licor.

Duas coisas famosas do Vale do Capão: Pastel de Jaca e Licor de Palito. Sobre o pastel eu já falei, agora sobre o licor, fiquei aliviadíssima ao descobrir que Palito é apenas o apelido do cara que vende os licores, não existe licor sabor palito, gente, ainda bem.

Licoteria de Palito.

Licoteria de Palito.

A licoteria tem muitas opções de sabores. Tem sabor de fruta que eu nunca nem tinha ouvido o nome (ex: nêspera). Dá pra comprar a garrafa e dividir com os amigos, ou tomar algumas doses generosas para poder provar de todos.

No centro também fica a pizzaria Capão Grande, que oferece somente dois sabores de pizza: mussarela com cenoura ralada e pizza doce de banana. As duas opções são vegetarianas e a massa da pizza é integral. A pizza doce foi a que mais gostei.

Pizza alternativa cortada de modo alternativo.

Pizza alternativa cortada de modo alternativo.

Então, basicamente o que fizemos por lá foi isso: trilhas durante o dia, pastel de jaca, licor e comidas à noite.

O mais legal da viagem foi mesmo ficar um tempo fora da rotina, saindo de casa sem levar o celular, passar longas horas fazendo trilhas, ou deitada em alguma pedra ouvindo o barulho da água correndo lá longe. O que inicialmente causa um estranhamento, logo vai fazendo parte da diversão. O estilo de vida do Capão é assim. Acostuma-se com a falta de eletricidade. A aranha no teto da cozinha já não incomoda mais (contanto que ela fique na dela, eu fico na minha também). Os marimbondos também continuaram por lá, mas não nos impediram de montar nossa fogueira de São João no quintal de casa para soltarmos fogos. No fim das contas, o que ficou foi a saudade da semana maravilhosa que passamos em um lugar tão lindo e rico como o Vale do Capão.

Saudades <3

Saudades ❤

Depois descreverei as trilhas que fizemos com mais detalhes e darei umas dicas práticas para quem quiser montar uma viagem para o Vale do Capão.

Beijos!

Lenita

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2 comentários sobre “Vale do Capão – Chapada Diamantina

  1. Fernanda disse:

    Leni querida,
    amei o post! Suas escritas são recheadas de graça, deu muita saudade do são joão, do vale e de tudo. Os hippies podem fazer um protesto por conta de seu post rsrsrs!
    Continue a escrever, continue a escrever…

  2. Gabriel Costa disse:

    Lenita meu anjo! Esqueceu de contar das flores raras e em extinção que eu arranquei e coloquei na cabeça de luciana na trilha da fumaça. Esqueceu do PF monstro por 10 reais hahahha! Tantas lembranças boas! SDDS!

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