A Catedral da Reconciliação.

Hoje é um dia importante aqui em Coventry. Dia de recordar o triste evento que aconteceu há 63 anos, quando 500 aviões nazistas bombardearam a cidade com o objetivo de destruir as “shadow factories”, fábricas que produziam peças de caças e equipamentos para a força aérea britânica. Coventry foi, de longe, a cidade mais bombardeada e mais afetada pela guerra. Junto com as fábricas, foi destruído todo o centro da cidade e mais de 4 mil casas. Os ataques começaram na noite do dia 14 de novembro de 1940 e só terminaram na manhã do dia seguinte.

Do pouco que sobrou, ficou o maior símbolo de recordação desse dia: as ruínas da Catedral de St. Michael. A antiga igreja, que foi construída há mais de 600 anos, e que era uma das maiores da Inglaterra, foi atingida pelas bombas e dela sobrou apenas a estrutura externa.

Catedral de St. Michael, em 1880.

Catedral de St. Michael, em 1880.

Interior da Catedral.

Interior da Catedral.

As bombas destruíram telhados, colunas, vitrais e tudo o mais que fazia parte do interior da Catedral. Restaram apenas a torre e as paredes externas. Obviamente, a devastação da antiga Catedral de Coventry foi motivo de grande comoção e tristeza, mas na manhã seguinte já estava decidido que ela seria reerguida, e se tornaria motivo de orgulho para as gerações futuras, assim como foi para as gerações passadas.

A Catedral, logo após os bombardeios.

A Catedral, logo após os bombardeios.

Ruínas da Catedral hoje em dia.

Ruínas da Catedral hoje em dia.

Mas, como se pode ver na foto acima, que tirei faz uns 6 dias, as ruínas da “Old Cathedral” continuam lá, do mesmo jeito que foram deixadas após os bombardeios. Ao invés de reconstruírem a igreja, foi decidido que uma nova Catedral de St. Michael seria erguida bem do lado da antiga, e que as ruínas permaneceriam lá, como símbolo de memória e reconciliação.

A Catedral de Coventry, nas mãos de seu primeiro bispo, que ali foi enterrado.

A Catedral de Coventry, nas mãos de seu primeiro bispo, que ali foi enterrado.

A torre, que sobreviveu aos bombardeios.

A torre, que sobreviveu aos bombardeios.

As duas catedrais de St. Michael, nova e antiga, lado a lado.

As duas catedrais de St. Michael, nova e antiga, lado a lado.

A Rainha Elizabeth foi quem lançou a pedra fundamental da nova catedral, que apesar de ser uma “reconstrução” da antiga, tem um aspecto totalmente diferente e moderno. Na parede externa, nas escadas que levam à entrada, fica uma escultura de St. Michael pisando na cabeça do diabo.

St. Michael e o diabo.

St. Michael e o diabo.

Hoje em dia, quando a catedral está aberta, sempre tem alguém passeando por lá, levando flores, fazendo 1 minuto de silêncio em datas especiais, etc. Uma coisa que me dei conta somente quando saí do Brasil e vim para cá, foi que para muitas pessoas daqui a guerra foi algo real, que elas viveram de perto, na qual perderam família, amigos, casa, dentre outras coisas. Por isso eles dão tanto valor ao que diz respeito a essas lembranças e fazem de tudo para preservar.

A catedral se tornou realmente um símbolo histórico para que todos possam se lembrar do que ocorreu nos dias 14 e 15 de novembro de 1940, não para incitar sentimentos de perda e de vingança, mas para trazer um sentimento de paz e de reconciliação.

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“Uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra.”  Miquéias 4:3

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Dias de férias em Coventry

E aí que as aulas terminaram, as provas foram feitas, os trabalhos entregues e agora é só alegria até setembro. Durante esse intervalo estaremos trabalhando em um projeto escolhido por nós mesmos, com reuniões quinzenais com o orientador e uma vez por semana teremos que ir à faculdade para registrar presença, que é o que eles chamam de “check in”.

Hoje vai ser completada a minha primeira semana de “férias” e nada de muito útil foi feito até agora. Durante esses sete dias, o que eu mais fiz foi dormir. Meus planos iniciais eram outros, tinham algumas coisas na minha listinha mental que eu vinha adiando e que poderiam ter sido feitas nesses sete dias de preguiça, mas o tempo aqui de Coventry não está ajudando nadinha. Algumas semanas atrás começou a fazer sol aqui na cidade. Tivemos uns quatro dias ensolarados e a temperatura chegou aos 23 graus, uma maravilha! Tirei os shorts que trouxe do Brasil de dentro da mala (pensei que nunca fosse usar, então já deixei lá pra facilitar a mala da volta, haha), comprei até umas duas blusinhas sem manga na Primark, pretendendo pernas e braços bronzeadinhos do jeito que eu gosto. Quem disse? Depois daqueles poucos dias de esperança choveu muito, choveu granizo, o céu ficou fechado o dia todo, todos os dias, uma tristeza só. Quando chove aqui, é a realização daquele ditado: Está na chuva? é para se molhar! A chuva sempre vem acompanhada de muito vento, e ele vem em todas as direções, é impossível usar a sombrinha. O pior de tudo era sair na rua e ver o vento sacudindo as árvores com toda a força, levando embora as folhinhas coloridas que demoraram tanto tempo a aparecer. E eu ainda nem tinha saído pela cidade com minha super câmera para registrar a primavera em Coventry :(.

Chovendo, ventando muito e sem ter aulas, para quê mesmo que eu vou sair de casa? Para quê mesmo que eu vou acordar? O mais interessante é que aqui normalmente depois de um dia inteiro de chuva, quando começa a anoitecer, o sol aparece, para ficar por umas poucas horinhas e depois sumir de novo. O que não adianta muita coisa, porque aqui em Coventry a cidade simplesmente morre a partir das 18h. De verdade, nenhum comércio continua aberto depois disso, o city centre fica vazio, vazio. Não é motivo de surpresa se você estiver em uma loja e, de repente, às 18h em ponto as luzes se apagarem e os vendedores mandarem você ir embora. E o mais estranho é que nessa época o dia vai até as oito e tantas da noite, fica tudo claro, mas ninguém quer saber disso. Só tem dois lugares que continuam abertos depois das 18h: A faculdade de engenharia e…a academia. Bem, eu não estou tendo mais aulas, o que significa que não preciso ficar indo à faculdade, mas continuo comendo, o que significa que preciso ficar indo à academia.

Academia aqui em Coventry é um negócio engraçado. Os ingleses naturalmente tem umas peculiaridades de comportamento com as quais jamais conseguirei me acostumar. Eles vão à academia calçando All Stars (já vi gente de sapato também). Outro dia eu entrei na academia e estava lá uma mulher correndo na esteira de calças jeans, e no mesmo dia tinha uma menina usando meia-calça preta. E só. Não era legging, era só meia-calça mesmo. Nos vestiários, tem velha pelada por todo canto. Nunca vi tanta pelanca solta em toda a minha vida. As inglesas não saem nem chegam na academia com roupa de malhar, como fazemos no Brasil. Depois de malhar, suadas ou não, elas colocam a mesma roupa com a qual vieram vestidas, pra depois sair na rua. No começo eu ficava meio envergonhada em sair na rua com roupa de malhar porque eu sentia que as pessoas olhavam estranho. Mas, bem, do jeito que as meninas se vestem aqui, ninguém tem o direito de falar um pio sobre mim.

Uma das coisas que me chamam atenção é a quantidade de idosos e deficientes fisicos que frequentam a academia. Nos horários que eu costumo ir sempre tem muitos idosos e pelo menos um cadeirante ou deficiente visual. Os deficientes físicos aqui em Coventry saem muito nas ruas, provavelmente porque a cidade é toda acessível, com rampas e sinalização para os cegos em todos os lugares. Os velhinhos aqui andam para cima e para baixo com carrinhos motorizados onde vão a todos os lugares. Enquanto no Brasil os jovens ficam impacientes com os velhinhos que andam devagar nas ruas, aqui é exatamente o contrário, eles que andam nos carrinhos apressados e quem quiser que se pique da frente.

electric wheelchair

Logo quando eu cheguei na cidade, quando ia ao mercado eu sempre via vários velhinhos na fila e ficava pensando “opa, aqui é a fila dos idosos.”, mas não tinha nenhuma sinalização. Depois eu descobri que aqui não tem prioridade para idosos, é todo mundo igual. Aqui tem muito velhinho trabalhando como faxineiro, motorista de ônibus, caixa de supermercado, etc. Idosos aqui pagam passagem de ônibus também.

Comecei a enxergar Coventry com bons olhos na primavera. Durante o inverno, quando eu só via um monte de galho seco coberto de neve, eu pensava que nunca seria possível essa cidade se tornar um lugar agradável. Mas, bem, até que não é tão péssimo assim. Agora as árvores estão todas cheias e há flores por toda parte. Ontem o tempo ruim deu uma trégua e eu chamei Rafael para um passeio pela cidade e, claro, aproveitei para finalmente tirar umas fotos antes que as árvores estejam todas depenadas novamente.

Em um parque perto da minha casa.

Em um parque perto da minha casa.

Flores.

Flores.

Floreees.

Oh, como sou espontânea e adoro a natureza.

Oh, como sou espontânea e adoro a natureza.

City Centre vazio, depois das 18h.

City Centre vazio, depois das 18h.

Coventry é uma cidade histórica por já ter se ferrado muito na vida. Existe um termo famoso aqui no Reino Unido que, quando alguém é ignorado e as pessoas tratam como se ele não existisse, ele foi “sent to Coventry” (enviado para Coventry).  Durante a segunda guerra, a cidade foi quase que completamente destruída pelos nazistas. As paredes da antiga catedral de St. Michael foram uma das poucas coisas que ficaram de pé após os bombardeios, e foi o que serviu de referência para a reconstrução do centro. Hoje em dia, Coventry é uma potência industrial, principalmente no setor automotivo. É aqui que são fabricados os famosos Cabs ingleses e também é onde fica a sede da Jaguar.

Ruínas da catedral após os bombardeios.

Ruínas da catedral após os bombardeios.

Foto que tirei ontem das ruínas. Ao invés de reconstruir a igreja, eles construiram uma novinha bem em frente e mantiveram a estrutura da antiga.

Foto que tirei ontem das ruínas. Ao invés de reconstruir a igreja, eles construiram uma novinha bem em frente e mantiveram a estrutura da antiga.

Na parede da nova catedral: A vitória de St. Michael sobre o diabo.

Na parede da nova catedral: A vitória de St. Michael sobre o diabo.

A partir dessa semana, já vou dar início ao meu projeto (tenho que decidir o que vou fazer pra ontem!) e também vou começar a planejar as próximas viagens, já que eu só tenho mais alguns meses por aqui e o tempo está passando muito rápido.  Já estou ansiosíssima para colocar minha mochilona nas costas e me mandar para algum lugar bem ensolarado e quentinho, de preferência com lindas praias e comida boa. OI? Ouvi alguém gritar “Itália!”?

Hahaha, quem sabe… 🙂

Beijos!!

Lenita

Onde estou morando e o que faço por aqui, alem de passar frio.

Tudo comecou três meses atrás, quando eu saí do calorzão de Salvador e vim parar nessa pequena cidade onde hoje resido. Logo quando cheguei, Coventry estava passando por um período de frio não usual, segundo me contou o gerente do banco onde abri conta, e estava absolutamente coberta de neve. Eu não conseguia dar dois passos na rua sem quase escorregar. “Mas não se preocupe”, disse ele, “No verão a gente ás vezes chega a até 20 graus!!”. UAU.

O inverno aqui é violento. Às quatro da tarde o comércio ja começa a fechar e já está quase tudo escuro. Sete da noite as ruas ficam completamente desertas e às dez da manhã ainda tá tudo fechado. Não é que o povo daqui seja preguicoso, eu entendo eles. Quando eu acordava às sete da manhã, aquecedor desligado, e tinha que levantar da minha cama quentinha e pular debaixo do chuveiro, já pensando no frio que eu ia enfrentar na minha longa caminhada de 30 minutos até a faculdade, dava vontade chorar. Dava vontade de pegar um avião e voltar pro Brasil.

Com o passar do tempo eu fui me acostumando e pegando o jeito da coisa (e a temperatura foi subindo tambem). Hoje em dia eu me sinto em casa. As vezes eu ate almoco feijão.

A casa onde eu moro fica um pouco afastada do centro e meio longe da universidade. A ideia inicial era morarmos na residência universitária, onde teríamos um quartinho ovo sem banheiro e, na cozinha compartilhada, apenas geladeira e microondas. Teríamos direito a dez refeições diárias no restaurante da universidade, logo, não precisaríamos cozinhar. Mas estaríamos limitados a comer o que os ingleses chamam de comida. E que nao é comida. É uma gororoba qualquer apimentada, acompanhada de batatas fritas.

Graças a Deus, esse planejamento inicial não deu certo, então viemos morar em residências que não pertencem à universidade, mas são alugadas por ela e que, no caso da minha, se divide em flats. Cada flat tem 4 quartos, cada um com seu banheiro individual, e a cozinha é compartilhada. Minha casa tem 6 flats. Em dois flats moram apenas brasileiros e nos outros quatro moram nigerianos simpáticos, porem muito barulhentos e que fritam peixe todos os dias, deixando a area comum com um cheiro peculiar. Aqui em Coventry tem muitos nigerianos, muitos mesmo. E chineses (leia-se: chineses, coreanos, japoneses, tailandeses…Nunca sei identificar). Ah, e, claro, indianos.

Meu Quarto

Cozinha

Cozinha

Como vocês podem ver, a cozinha tem tudo (inclusive máquina de lavar), então dá pra cozinhar tranquilamente. Obviamente, a cozinha tem tudo, mas não veio com tudo. Todos os utensílios, panelas, produtos, etc, nós mesmos que compramos. Eu cozinho meu próprio almoco todo santo dia, o que é bom porque eu economizo dinheiro, me alimento melhor e ainda me torno uma menina prendada 😉 . E não infarto do coração comendo 1kg de pimenta por semana. No mercado aqui eles já vendem as carnes cortadinhas e em porções pequenas e as saladas já vem lavadas e prontas para comer. Cozinhar aqui não é problema.

Esqueci de explicar antes o porquê de eu estar aqui no Reino Unido. Eu consegui uma bolsa no programa Ciência sem Fronteiras, que é uma iniciativa do governo que tem como objetivo a internacionalização da ciência e da tecnologia, pra tornar o Brasil mais competitivo no âmbito internacional. Basicamente, eles estão enviando vários estudantes de graduação e pós-graduação para universidades no exterior. É o que eles chamam de “graduação sanduíche”. A gente interrompe o curso no Brasil, vem pra cá, faz uma parte do curso aqui e volta pro Brasil pra terminar. A gente assina contrato se comprometendo a voltar e continuar o curso, etc. Não, não tem a possibilidade de eu me casar, comprar uma casa, um carro e ficar morando aqui pra sempre.

Na universidade, estou cursando disciplinas do mestrado em engenharia elétrica. Isso porque o esquema da graduação aqui é diferente. Eles ofereceram pra gente a possibilidade de entrar no Year1 da graduação, onde a gente pegaria matérias muito básicas e a ideia da “graduação sanduíche” perderia todo o sentido. Por isso entrei no mestrado, onde há maior possibilidade de eu conseguir eliminar matérias quando voltar para o Brasil. Estou estudando na universidade de Coventry (Coventry University), que eles carinhosamente chamam de CU. Eles vendem casacos “I ♥ CU”.

A universidade é bem legal. O prédio de engenharia foi recentemente construído, em formato de colmeia, então tudo é muito novinho e conservado.

Miniatura da Colmeia

Colmeia

A cidade aqui é meio parada, mas também não é interiorzinho como no Brasil. Aqui as lojas estão concentradas no City Centre, que é uma área de livre circulação de pedestres, nada de carros, onde tem muitas lojas e se econtra praticamente tudo… o que há de mais esquisito na terra. Depois eu faço uma postagem sobre a cidade, com fotos e histórias interessantes.

Agora que estamos no final de Abril, a temperatura já subiu bastante. Já dá pra sair na rua com apenas uma camada de roupa tranquilamente. Ás vezes eu fico até com calor dentro de casa (mas aí eu lembro de desligar o aquecedor e o calor passa). Os dias também estão muito mais longos. O sol só começa a se pôr lá pras oito da noite, e eu imagino que no verão fique ainda melhor.

Então é isso, agora vocês já sabem o que tá rolando por aqui. Com o tempo vou contando mais coisas.

Beijos!

Lenita